Maria Emília é advogada e sócia fundadora da Rueda & Rueda Advocacia Nos últimos anos, diversos países sob governos de esquerda — ainda que em contextos distintos — enfrentaram um problema comum: a priorização de pautas consideradas supranacionais, tratadas como superiores às demandas concretas da população. A governança cedeu espaço a debates simbólicos, muitas vezes desconectados da realidade imediata dos cidadãos. Líderes como Joe Biden, por exemplo, deixaram em segundo plano as entregas práticas esperadas de um chefe de Estado. Ao privilegiar a agenda “woke”, substituíram ações objetivas por pactos globais em temas amplos e intangíveis — muitos deles relevantes, sim, mas distantes da vida cotidiana do contribuinte. Desde o início do ano, no entanto, os Estados Unidos voltaram a falar de governo — no sentido mais concreto do termo. Até mesmo a disposição de Donald Trump em intermediar o cessar-fogo que poderá encerrar a guerra na Ucrânia vem ancorada em uma lógica pragmática: interromper o fluxo de gastos externos com recursos do contribuinte americano. Focar nas questões internas e buscar soluções específicas para os desafios nacionais inicialmente soou, a alguns, como gesto egoísta — principalmente em um mundo habituado a governos progressistas e discursos globais. Mas o sinal está dado: é hora de governar. Quem não o fizer, corre o risco de falar sozinho, enquanto a economia mundial se reorganiza. Trump vem sendo claro em rejeitar acordos que, a seu ver, prejudicam os interesses dos Estados Unidos. O desconforto inicial cede espaço, entre governos minimamente sensatos, à constatação de que será preciso negociar com realismo. A tentativa de unir países em torno do ressentimento contra a mudança na postura americana não resistiu ao fato óbvio de que os EUA seguem sendo um parceiro indispensável. Subir o tom, ensaiando um confronto comercial, já se mostra contraproducente. Se a política tarifária americana endurece, o caminho é fortalecer laços — e não fragilizá-los. Os países que melhor navegarão este novo ciclo são os que colocarem a pauta econômica no centro, ajustando-se estrategicamente a cada mercado e oportunidade. Mas é preciso também reconhecer os riscos dessa virada de postura. A redução do papel global dos EUA — com possíveis efeitos na OMC, na OMS, no financiamento da USAID e na adesão ao Acordo de Paris — pode trazer incertezas e gerar um vácuo de liderança em temas sensíveis. A substituição do soft power por uma agenda puramente transacional ainda testará os limites da influência americana e suas consequências para o mundo. A política comercial mais agressiva, por sua vez, pode impactar negativamente economias mais frágeis, como a brasileira. Barreiras tarifárias, mesmo quando legítimas, têm potencial de desestabilizar setores inteiros. Caberá a nós, como país, identificar com rapidez os pontos de tensão — e também as oportunidades que podem surgir com novas reconfigurações de alianças e mercados. Se antes as agendas identitárias unificavam governos em discursos muitas vezes vazios, agora o pragmatismo retoma o protagonismo. A tendência de governos de direita nas principais democracias recentraliza o debate no que realmente transforma a vida dos cidadãos: cooperação econômica, comércio justo e políticas públicas eficazes. O momento é de governar com foco. Costurar contrapartidas, fomentar áreas estratégicas e, principalmente, reconhecer que olhar para dentro do próprio país — sem fechar-se ao mundo — é não apenas legítimo, mas necessário. Desde que façamos o mesmo, com inteligência e responsabilidade.



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