Millena Machado é jornalista, apresentadora de TV, palestrante, media trainer e professora de comunicação assertiva. Imagine um praticante do taoísmo, focado na simplicidade e na naturalidade, emocionado com histórias de castelos, príncipes e batalhas entre reinos. Parece improvável. Mas é exatamente aí que mora a “magia Disney” e, pode-se dizer também, o poder das grandes marcas globais.
A Disney nasceu ancorada em valores claros da cultura americana, que se definiram pela ética cristã. Narrativas que trabalham a vitória do bem sobre o mal, a recompensa pelo esforço e a redenção. Durante décadas, princípios religiosos ilustraram histórias simples como sendo o espelho cultural do Ocidente.
O modelo ainda funciona, mas não encanta como antes. Em 2025 o número de visitantes estrangeiros nos parques americanos caiu 80%. Ao mesmo tempo, do outro lado do mundo, a Disneylândia de Hong Kong aumentou em 25% a venda de ingressos no Natal. Mas não foi uma expansão, o parque existe há 20 anos! Foi permissão de leitura cultural.
Uma parceria com Keung To, cantor e ator muito popular, traduziu a Disney para o público asiático sem narrativa imposta. A marca simplesmente saiu de cena para deixar um ídolo local conduzir a experiência. Keung To não seguiu o roteiro institucional, nem foi obrigado a fazer foto com pateta ou dar um beijo na Minnie. Ele ficou livre para curtir com amigos, publicar lives, mostrar bastidores, interagir diretamente com o que mais lhe chamasse a atenção, inclusive os cookies decorados inspirados nos personagens Disney.
Hong Kong mostrou que para marcas globais não basta estar presente. É preciso aceitação. Lá não há conflito simbólico. Cerca de 60% da população não declara religião formal. A fantasia não disputa espaço com a fé, ela ocupa o lugar da experiência. As histórias não são lidas como doutrina. A relevância não está em insistir na leitura corporativa dos próprios símbolos, mas permitir que sejam reinterpretados à luz da identidade local.
A Disney já faliu quatro vezes. Sempre voltou. Um lembrete para as marcas que querem se perpetuar. Em um mundo culturalmente fragmentado, o poder não está em manter intacto. Talvez porque a “magia” não é rígida, mas adaptável.



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