Papo de Conselho - Governando o clima: da ambição das políticas à execução institucional
Por Andrea Mansano
Andrea Mansano é CEO da Diversity on Boards, economista, palestrante e investidora em startups A mudança climática deixou de ser uma questão ambiental. Trata-se de um teste de governança.
Ao redor do mundo, governos tornaram-se proficientes em anunciar metas ambiciosas. Muito poucos, no entanto, desenvolveram a capacidade institucional necessária para entregá-las. A lacuna entre compromisso e execução tornou-se hoje a principal linha de fratura das políticas climáticas.
O Brasil oferece um retrato familiar: há avanços, mas de forma desigual. Algumas regiões avançaram na integração de estratégias de mitigação e adaptação; outras permanecem limitadas por capacidade institucional restrita, coordenação frágil e financiamento insuficiente. Essa assimetria não é exceção — é a regra. As regiões mais expostas ao risco climático são, frequentemente, as menos preparadas para enfrentá-lo.
Isso revela uma verdade mais profunda: governança climática não é, primordialmente, sobre desenho de políticas. É sobre execução. Exige coordenação entre sistemas fragmentados, clareza de responsabilidades e uso disciplinado de dados. Ferramentas como observatórios climáticos e sistemas de monitoramento não são luxos técnicos — são infraestrutura de governança.
Enquanto isso, o custo da inação deixou de ser abstrato. Enchentes, secas e incêndios florestais já impõem perdas econômicas mensuráveis e crescentes. O risco climático tornou-se uma realidade fiscal, operacional e política. Tratá-lo como um tema periférico é, cada vez mais, uma falha de governança.
Ainda assim, a maioria dos governos continua mais eficaz em formular planos do que em implementá-los. Fechar essa lacuna exige alinhamento institucional, colaboração intersetorial e capacidade de traduzir ambição nacional em entrega local — onde, de fato, as políticas têm sucesso ou fracassam.
A evidência é clara. Onde a governança climática funciona, três elementos estão presentes: direção estratégica, sistemas robustos de monitoramento e responsabilização efetiva. Sem esses pilares, até mesmo as políticas mais sofisticadas permanecem performáticas.
No fim, governança climática não é sobre promessas. É sobre capacidade. Em uma era definida pela incerteza climática, governos serão julgados não pelo que pretendem — mas pelo que são estruturalmente capazes de entregar.



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